Category: Comida

Passos para um fim-de-semana feliz

Primeiro passo:
chocolate cake, step 1
Alcançar um dos chocolates de agricultura biológica que stockámos, comprados na loja virtual do Culantro Rojo.

Segundo passo:
chocolate cake, step 2
Desembrulhá-lo e babar com o cheiro.

Este chocolate culinário é tão magro que é difícil de derreter em meio não gorduroso, como café ou rum. Venha o óleo de girassol.

Terceiro passo:
chocolate cake, step 3
Lanchinho na varanda.

Fotografar o quarto passo requer uma câmara endoscópica, de que não dispomos.

NYC mnham

Quem me conhece sabe que não é de estranhar que comece os meus relatos nova-iorquinos com as experiências gastronómicas.

Estando nós hospedados em casa de uma anfitriã espectaculosa, não experimentámos tantos restaurantes como se estivéssemos num hotel. Mesmo assim, experimentámos alguns. O primeiro restaurante de que aqui falo entra na categoria memorável pela comida, pelo espaço e, óbvio, pela companhia. O segundo é memorável por várias razões, sendo que a comida, surpreendentemente, é uma delas.

Passemos então ao primeiro: Mishima, na Lexington Av. entre as ruas 30 e 31. Apesar do site fraquinho, a comida é cinco estrelas. Os rolos são de comer e deliciar-se e as porções têm o tamanho certo. Daí, não ser de “comer e chorar por mais”, porque realmente não ficamos com fome. O espaço é bonito, arejado mas bem aquecido (factor muito importante na semana que lá passámos), a localização é óptima, perto do metro (e perto de casa). A misoshiro (sopa) tinha caldo, verdura e tofu nas proporções e temperos certos. As gyozas, de massinha fina e deliciosa, deixaram saudades. O age dashi tofu também estava delicioso, apesar de gostar de um tofu um pouco mais consistente. E os rolinhos, eu seja santa, nem dá para falar muito neles sem me crescer água na boca. Vejam vocês mesmos:

Sushi at Mishima, NYC

A segunda experiência gastronómica foi no Katz´s, na Houston St. Apesar da comida ser deliciosa, o lugar entrou directamente para a parede da glória da cultura popular com esta cena protagonizada por Meg Ryan. Diz que também lá estava o Billy Crystal, mas enfim: prioridades são prioridades.

Chegámos lá através da minha amiga flickeriana, com quem tínhamos combinado almoçar e que sugeriu uma experiência de diner americano. Se não tivesse ido com ele, o mais provável era não ter entrado. E isso seria uma grande pena.

Katz´s in NYC

Katz´s in NYC

Katz´s in NYC

Há todo um esquema com filas para as sanduíches, filas para as bebidas e batatas fritas, filas para as panquecas de batata, senhas e luta por lugar sentado. Mas todo o esforço é amplamente recompensado quando finalmente começamos a comer. Pedimos duas sanduíches de pastrami, dois pepinos picklados a níveis diferentes, batatas fritas e panquecas de batata (latkes) para dividir entre os três. Foi uma refeição, em todos os sentidos, memorável, já que as porções são fartas e a comida é deliciosa. Não é uma opção para todos os dias (ai o fígado!); mas é uma experiência nova-iorquina a não perder.

As actividades e os seus frutos

Panquecas com doce de tomate caseiro

A Cidade do Panamá não é uma metrópole vibrante de actividade cultural, pelo que quando cá estiveram os meus pais usufruímos do tempo para fazer actividades. Vocês perguntam, e muito bem, que actividades? E perguntam também quantos anos terei, claro está, porque isto das actividades é conversa da minha sobrinha de seis anos. Eu tenho mais uns quantos que ela, mas gosto igualmente das ditas actividades!

Pois uma delas foi aprender a fazer doce de tomate. A minha Mãe faz um doce de tomate que é de comer e chorar por mais, de rebolar no chão e fazer birra, de bater com o pé e exigir mais, só porque é tão delicioso. Por isso fomos ao mercado comprar tomate o mais madurinho possível, deixámo-lo fora do frigorífico um par de dias, e tunfas, ao ataque. Enquanto a panela esteve ao lume, a casa encheu-se de um cheirinho delicioso a canela, a tomate cozinhado, a açúcar derretido… enfim, um odor bem inspirador para uma outra actividade que tínhamos em mãos (sobre a qual falarei oportunamente).

Avancemos para o Sábado passado, dia em que o Príncipe fez panquecas para o pequeno-almoço e eu aproveitei para usar o doce de tomate para as barrar. Qual maple syrup, qual quê…!

A apreciação das qualidades organolépticas é excelente, o sabor é de – lá está – comer e chorar por mais. Aqui está uma excelente vantagem de estarmos a viver no Panamá, e não em Buenos Aires. Lá haveria certamente algum museu para visitar e, consequentemente, afastar-nos da minha aula prática, que tão bons resultados rendeu.

P.S. Um par de dias depois, repetimos a dose para o doce de ananás. Mnham!

Tarte de laranja

Home is homier when I bake

Já o disse noutras ocasiões e repito-o agora: esta casa é mais casa quando faço bolos. E é por essa mesmíssima razão que criei uma nova tradição: sexta-feira à tarde (ou durante o fim-de-semana) é dia de fazer um bolo.

Tenho andado a gostar muito de seguir as receitas da Julia Child; desde que vi o filme Julie & Julia – numa cena, que não me sai da memória, o marido da Julie agarra-se de mão aberta a um bolo de chocolate que ela fez – que fiquei com vontade de ler e de experimentar.

Quem me conhece sabe que não sou menina para me pôr a cozinhar carnes, nem pensar em desossar um pato!, por isso mesmo me tenho dedicado às sobremesas: não se gastam numa só refeição e adoçam a boca durante o fim-de-semana.

Esta semana experimentei fazer a tarte de laranjas. No original, era uma tarte de limão ou de lima. Mas tinha laranjas em casa – que ainda por cima não são particularmente doces – e, por isso, adaptação com ela. Fiz a massa quebrada à mão, com a preciosa ajuda da Kitchenaid, cozinhei o recheio, forno e… hmmm!

Como de costume, substituí a manteiga (por óleo vegetal) e reduzi o teor de gordura da receita, coisa que voltarei a fazer no futuro. E fiquei encantada com a massa quebrada feita à mão: não custa assim tanto e a diferença é abissal.

Queiram desculpar-me o fim súbito deste post, mas tenho de ir ali à cozinha…

Foi você que pediu um post sobre gastronomia?

chocolate

Não é que qualifique exactamente como gastronomia, mas acho que todos podemos benevolamente incluir a iguaria na categoria de alimentos. Vá, não que seja um alimento absolutamente essencial (quem disse, quem?), mas que a vida com chocolate é melhor, lá isso é.

Num dos passeios ao Casco Antiguo vi um café que tinha cá fora um dístico a anunciar “organic chocolate”. Não hesitei: jamais hesito quando a causa é boa.

E foi assim que descobri este chocolate de agricultura biológica, nacional, mais concretamente de Bocas del Toro. Curiosamente, comprei duas barras e, acredite-se ou não, ainda não as terminei. E não é por falta de gula. É que o chocolate é tão bom e tão potente que, com apenas um bocadinho, fico satisfeita.

O problema é que provar este chocolate é um caminho só de ida: quem o prova não volta atrás. De agora em diante, a coisa fica difícil para as multinacionais chocolateiras…

Ceci n´est pas…

Canelonis com espinafres, cogumelos e requeijão, feitos pelo Príncipe.

…um blog de cozinha. Não obstante, não podia deixar de mencionar o nosso desafio doméstico depois de termos visto o filme Julie & Julia. Quem for ver o filme saberá que cada uma das Júlias se propôs cumprir um desafio grande, do género “enorme”. Cá em casa, pelo contrário, contentamo-nos com uma coisa mais simples, mas que tem sido divertida: às quartas-feiras e aos Domingos experimentamos, à vez, uma receita nova. A única regra é que esteja num dos livros de cozinha que cá temos em casa.

No cardápio doméstico já tivemos, cozinhados por mim: trouxas de espargos, muffins de acelga, rolo de noz com espinafres e cogumelos; cozinhados pelo Paulo, tivemos cataplana de porco e espargos, sopa de milho e, ontem, uns magníficos canelonis de espinafres, cogumelos e requeijão. Feitos na pastalinda que lhe ofereci, claro.

Ensaimada sanpedrina

Ensaimada Sanpedrina

Quem me conhece sabe que eu não sou rapariga de doces. Exceptuando o chocolate (o mais escuro possível, se faz favor!), não sou assim muito fã. Gosto de alguns doces menos doces, como aqueles algarvios em forma de fruta. Dispenso os fios de ovos do interior, mas se vierem, bem, também não é o fim do mundo. (Só não consigo mesmo comer os que têm forma de gamba. Não dá.)

Ora bem, o preâmbulo serve para dizer que, apesar de não gostar de doces, gostei muito da ensaimada sanpedrina que, para as gentes de San Pedro, é mallorquina. Tem forma de focaccia, massa parecida à da bola de Berlim e, no seu interior, creme de pasteleiro ou doce de leite. Preferimos o primeiro, porque entre um e outro o creme de pasteleiro ainda consegue ser menos doce.

Contrariamente a tudo o que eu poderia esperar, gostei da ensaimada. A textura da massa é muito leve, a massa praticamente não é doce e o creme de pasteleiro estava com uma textura muito agradável. Pelo tamanho da porção, é um doce para partilhar com alguém.

Acreditem, a mais surpreendida aqui fui eu.

Colonia de Sacramento, agora e sempre

la dulzura puede cambiar el mundo
É com alguma surpresa que reparo que há já uma semana que nada escrevo aqui no “Entre…”. E não é que não se tenha passado nada por estas bandas – pelo contrário, está sempre a acontecer qualquer coisa, mesmo que de importância mínima para o resto do mundo (e todos nós sabemos que a relevância do que aqui se publica é bem diminuta).

Na semana passada fui até Colonia de Sacramento, cidade uruguaia fundada por portugueses, cujo centro histórico guarda muito encanto sobretudo para quem vive no bulício de Buenos Aires. Entre uma e outra existem 60km de Río de la Plata, o que marca toda uma miríade de diferenças. O que deste lado tem de agitado, tem Colonia de descanso e de tranquilidade.

Contudo, esta visita foi especial: enquanto passeávamos com um passo ajustado ao ritmo que lá se vive, a mãe do Paulinho encontrou um aviso para um café que prometia ser o “best well kept secret” de Colonia. E não mentiram.

Tea at Lentas Maravillas, in Colonia de Sacramento, Uruguay

Neste sítio, onde a lotação de um jardim imenso é de apenas quatro mesas, onde o serviço é simpático, sorridente e muito tranquilo, onde tricotei quase uma manga inteira da camisola que estou a fazer, o chá é chá e a bolacha com pepitas de chocolate é feita com chocolate verdadeiro. Verdadeiramente Lentas Maravillas.

Festas e mais festas…

Uma das particularidades do Natal de uma emigrante – ou, pelo menos, do meu Natal – é o facto de as festividades começarem assim que se aterra em Lisboa. Não me refiro só aos jantares próprios da época, mas também ao reencontro com a família e os amigos e, especialmente, quem está em idade de mudar mais em poucos meses: a minha sobrinha.

E como eu gosto do Natal! A mesa está quase sempre posta, entra e sai gente a toda a hora, há muito chazinho, chocolate quente, bolinhos e biscoitos, a lareira acesa, uma maravilha!

Este ano o stresse das prendas foi evitado graças às opções minimalistas que tomámos (menos presentes, comprados ou feitos com antecedência). Em contrapartida, o que houve foi uma sucessão de serões agradáveis passados à volta da lareira (ou do aquecedor), a ocasional partida de scrabble e muito tricot.

A consoada teve uma ementa sui generis, com uma escolha muito particular de amêijoas e de polvo à Lagareiro, iguarias difíceis de encontrar em paragens mais austrais, por muito estranho que pareça num país com tanto mar.

Com bolinhos, biscoitos, muito aconchego da lareira, miminhos e abracinhos da família, passámos um Natal e preparámos as festas seguintes…

Argentinizada

Para além de já ter descartado o “tú” e só usar o “vos”, eu cebo e bebo mate, digo buendía em vez de buenos días e nunca, por nunca ser uso a palavra c…er, que em Espanha serve para tudo, desde apanhar, agarrar ou tomar.

Mas, apesar de argentinizada, uma pessoa não esquece de onde vem e quem é português, português fica. É o que prova a imagem abaixo:

Pastéis de Feijão de Torres Vedras acompanhados de um mate amargo, à verdadeira gaúcha!

Ah, como é bom voltar a "casa"…

E por “casa”, entre aspas, quero dizer “Brasil”. Sim, ir ao Brasil é como voltar a casa. Porque é assim que me sinto quando vejo o mar, os telhados de telhas, a calçada portuguesa (não sei se no Brasil a chamam de “portuguesa”; por favor não levem a mal a minha falta de alternativa na nomenclatura!).

Apesar do tempo ruim, ou do mau tempo, para quem preferir, que isso agora era para estar de short e camiseta, como me garantiram as minhas fontes, os quase quatro dias passados no Rio foram… óptimos. Foram mesmo cheios de comida boa, de passeios melhores e da companhia dos amigos, o que faz de qualquer visita a outra cidade uma experiência inesquecível. Já da outra vez tinha sido maravilhoso e desta as altas expectativas que tinha não ficaram defraudadas.

Na quinta saímos daqui do centro da cidade, do Aeroparque, rumo ao aeroporto de Montevideo. Experimentámos voar pela Pluna e não nos desiludimos. A escala no Uruguai é muito curta mas faz-se sem problemas, dado que os passageiros são deixados numa mini-salinha (mini, mas bem apetrechada de Duty Free, não que eu seja fã) e os quarenta minutos de espera passam num instante.

Chegados ao Galeão, foi uma alegria poder falar português. Talvez de forma mais pausada, mas é óptimo poder falar a minha língua e ser compreendida, sem ter de estar sempre a traduzir.

saltinho no Museu em NiteróiSaltinho no Museu de Arte Moderna de Niterói, célebre projecto do Arquitecto Niemeyer. E muito fotogénico, não é?

o mítico orelhão O Paulinho telefona à C, num mítico orelhão de Ipanema.

decorações natalícias, brazilian style Decoração natalícia de montra de Ipanema. Quiçá o chinelo da Garota?

Visita ao Brasil, sobretudo se o tempo está mau e a praia não é a opção que mais ocupa o nosso tempo, não está completa sem falar da gastronomia. Ah, e aqui… aqui o Brasil tem cartas para dar, sobretudo com o déficit de oceano, peixe fresco e de saborzinho a feijão. Já para não falar nas sobremesas, apesar de ser mais chegada a salgados que a doces.

água de coco na praia, à noiteA água de coco não podia faltar, né não?

"A" feijoada no Bar do Mineiro, em Santa Teresa“A” Feijoada no Bar do Mineiro, no bairro de Santa Teresa. O bar, mais próximo de uma tasca que de um bar propriamente dito, estava cheio, cheio, o que só atesta a sua qualidade.

casquinha de siriCasquinha de Siri na Tia Penha, nos arredores do Rio.

bobó de camarãoBobó de camarão, também na Tia Penha. Resta-me referir que voou. Desapareceu. Evaporou. Foi-se. Em menos de nada.

queijinho de coalho na brasa, à beira da praiaQueijinho de coalho assado na brasa, à beira da praia. Sol, água de coco e queijinho que vem ter connosco? Pode-se desejar mais na vida?

Domingo de manhã o sol espreitou, ainda que de forma envergonhada, e pude molhar as pernas nas águas do Atlântico Sul, mais ao norte que Cariló. Vesti-me a preceito e tudo, mas depois o mar revolto e um fundão na rebentação actuaram como dissuasor aos meus desejos de um mergulho completo.

saltinho na praiaAh, a praia!!!! O oceano… o mar revolto, as ondas, a água fria, a espuma branca! É o meu déficit de mar a falar mais alto!

De “casa”, voltámos a casa. Também foi bom chegar.

P.S. Faltam-me as fotografias para documentar a cocada. Mas, gente, eu não sou chegada a doces e olhem que com este não pude resistir! Mnham, mnham!

Boliviana

Hoje vinha pela rua e encontrei uma senhora, talvez boliviana, a vender verduras. Nada de novo até aqui. O que me chamou a atenção é que tinha umas favinhas com muito boa cara. Voltei atrás e perguntei-lhe a quanto as vendia. Com cinco pesos, nada mais, trouxe um belo saquinho de favinhas já descascadas. As que vêm na vagem, gosto de as separar enquanto falo com alguém: é daqueles prazeres que têm mesmo de ser partilhados, senão não são prazeres verdadeiros.

Voltando à senhora, talvez boliviana, talvez peruana, quiçá paraguaia, estendeu-me o saquinho para as mãos, fez-me um sorriso luminoso, agradeceu-me a compra e perguntou-me se eu era boliviana.

Não sei se foi o sorriso dela, se a pergunta, se o desejo de que le salga muy rico, señora!, a verdade é que fiz o resto do caminho até casa com um sorriso na cara.

(Consideração aparentemente lateral: quanto terei eu perdido nos anos macaenses por não falar cantonense!)