Category: Buenos Aires

Buenos Aires bye bye (8): Feliz Bicentenário!

08_BsAs bye bye

No dia 25 de Maio de 2010, este jovem país que é a Argentina celebra 200 anos de existência independente da coroa espanhola. A todos os argentinos eu desejo um feliz dia de aniversário da sua pátria: não é todos os dias que um país completa dois séculos de existência. Desejo-lhes que todos os sonhos argentinos se cumpram e que o país se transforme na casa sonhada de tantas gerações de locais e de imigrantes.

Buenos Aires bye bye (7)

07_BsAs bye bye

Uma das boas descobertas argentinas (descoberta para mim, claro, para os outros já não era novidade) foi o trabalho de artista Liniers. A primeira coisa que vi dele foram umas páginas com reproduções do seu diário de viagem (que mais tarde se transformariam em livro) e de aí em diante foi um caminho só de ida. Gosto muito da sua técnica, mas o que realmente me chama é o humor tipo “nuvem cor-de-rosa”: um humor positivo, que não rebaixa ninguém. Parte de episódios quotidianos, coisas aparentemente sem importância e que, através da caneta dele, se revelam situações hilariantes em que todos nos reconhecemos.

Um dia, Liniers começou a pintar nos concertos de Kevin Johansen e os The Nada e eu lá fui. Descobri uma banda sonora com o mesmo tipo de humor e fiquei fã.

Na fotografia, uma exposição de vinhetas do Liniers, sobre oceanos e ecologia, na cidade de Puerto Madryn, onde fomos em Outubro passado para ver baleias.

Buenos Aires bye bye (5)

06_BsAs bye bye

Se há coisa que esta cidade tem de espectacular são os jardins públicos e parques que salpicam de verde a malha quadriculada. Os Bosques de Palermo são um conjunto de vários espaços que constituem um corredor verde pela cidade. A maioria dos jardins é de acesso livre e gratuito, à excepção do Jardim Japonês, com entrada paga. Alguns jardins têm horário controlado, como o meu favorito, o Rosedal de Palermo.

06_BsAs bye bye: Rosedal de Palermo

O Rosedal é um enorme jardim só com rosas, tal como indica o nome. Na Primavera, quando as flores estão a desabrochar, forma-se um festival histérico de luz e cor só comparado com o violeta dos jacarandás. É um espaço lindo, lindo, aonde se acede através de uma ponte estilo jardim romântico inglês, que atravessa o lago que limita o jardim. É um favorito dos porteños em dias de sol – e como poderia ser de outra maneira? É lindo, lindo e grátis, que mais se pode pedir?

Buenos Aires bye bye (6)

05_BsAs bye bye

Não há visita a Buenos Aires sem uma ida ao tango. Seja ele show do dito, armado especialmente para turista ver, seja ele de rua ou até uma versão mais alternativa, esta cidade sem o tango não seria a mesma coisa.

Não posso dizer que as minhas habilidades tanguísticas se tenham desenvolvido muito durante a minha estadia cá. O que posso dizer é que vi alguns shows de tango e em todos, todos eles, mais ou menos pirosos, fiquei hipnotizada pela liquidez dos movimentos. Em alguns momentos, fiquei na dúvida sobre se eram bailarinos ou artistas de circo, hipnotizadores ou prestidigitadores.

O código do tango é uma depuração da corte à maneira latina: o homem olha; se a mulher corresponde, ele levanta-se, atravessa a sala e vai buscá-la para dançar. Se ele já lá está à beira dela, fica difícil dizer que não; a vontade feminina manifesta-se a montante, não cruzando o olhar, ou mirar especificamente o parceiro desejado. Esta dança de olhares, prévia à dança na pista, é sempre, sempre um espectáculo digno de ser observado, exclusivo das milongas mais tradicionais.

Buenos Aires bye bye (4)

04_BsAs bye bye

Estar longe do meu país deu-me – talvez mais do que esperava – um ataque de patriotismo agudo. Durante estes anos aqui em Buenos Aires, onde assumem sempre (mas sempre!) que sou brasileira, encontrar coisas que me façam lembrar de Portugal deu-me muita alegria.

(Abro aqui um pequeno parêntesis para explicar que não tenho absolutamente nada contra o Brasil ou os brasileiros e não considero minimamente ofensivo que pensem que sou brasileira. Não é nada disso. É só a coisa de “assumir”, ou seja, para um argentino, só porque falo português, sou brasileira. E não, juro que no mundo há outros lugares onde também se fala português, nomeadamente… em Portugal.)

Todos sabemos que a distância nos dá uma perspectiva mais clara do panorama, seja ele uma situação familiar ou até a de um país. E estar aqui na Argentina trouxe-me talvez uma maior apreciação pela vida que Portugal proporciona aos seus habitantes. Não vou dizer que é um país nórdico no que toca a salários ou à altíssima eficiência do serviço nacional de saúde, mas também não é a desgraça de que os meus compatriotas tanto falam. Viajar – e viver no estrangeiro – dá-nos ferramentas de comparação entre a nossa e a de outro lugar. Em todo o lado há coisas melhores e outras piores; faz-nos falta a nós, portugueses, apreciar mais as coisas que temos e valorizar-nos mais perante o exterior. E esta também foi uma aprendizagem com os argentinos, que têm de si próprios uma imagem muito boa (talvez exagerada) mas que lhes dá uma confiança imensa e um espírito de iniciativa invejável.

A distância também nos faz entender até que ponto somos de um certo lugar: nunca me tinha sentido tão portuguesa quanto aqui, na Argentina. Mas também sei que, um dia quando voltar a Portugal, me vou sentir mais estrangeira que nunca.

Buenos Aires bye bye (3)

03_BsAs bye bye

Árvores, árvores, árvores. Buenos Aires tem muitas árvores. Aliás, uma daquelas estatísticas que os argentinos em geral e os porteños em particular gostam de fazer é que é a cidade da América Latina com mais árvores.

(Claro que esta afirmação não tem absolutamente nada de científico e denota até uma pequenina ironia da minha parte, já que uma das características locais é que os próprios são sempre os “mais” de alguma coisa. Alguns exemplos: o terceiro maior relógio do mundo, com figurinhas a sair e tudo, está numa terrinha perdida no planalto andino, na província de Jujuy, e vem a seguir ao de Bariloche e ao Glockenspiel de Munique! A avenida mais longa está, obviamente, aqui na Argentina, e é uma avenida que começa em Buenos Aires, se transforma em estrada nacional e chega até Mendoza, a mais de mil quilómetros daqui. Claro, este recorde é disputado entre as duas cidades, já que ambas se orgulham do mesmo… Enfim, já deu para ver o exagero da coisa, não?)

Voltando às árvores em Buenos Aires, realmente são numerosas e fazem muita, muita diferença. Esta é uma cidade que de ares bons tem muito pouco, já que o parque automóvel tem uma idade média muito alta. É decrépito, ruidoso, fumarento, enfim, responsável pela maioria da poluição urbana. As árvores, essas, para além de ajudarem a limpar o ar, constituem também um isolante acústico significativo. Caminhar num passeio com árvores não tem absolutamente nada que ver com a situação análoga numa rua desprovida de verde.

E por isso, adoro as árvores nesta cidade. São lindas todo o ano, cada uma em seu momento.

Boas notícias

Quero aqui fazer um post pequenino para alegrar as hostes, ou talvez para contrariar todos os “Velhos do Restelo” deprimidos que só falam da crise em Portugal e da desgraceira em que o país se encontra. Hoje, na minha visita ao jornal Público online, encontrei duas notícias que me parecem realmente boas: a primeira dá conta de que Portugal teve o maior crescimento dentro da UE, no primeiro trimestre do ano. Não digo que o crescimento seja enorme, mas contraria realmente todos os pessimistas que teimam em colar-nos à Grécia. A segunda notícia, também muito boa mas noutro campo totalmente diferente, conta que pela primeira vez há colónias de flamingos a nidificar em Portugal, a saber, na Lagoa dos Salgados, no Algarve.

O resultado destas notícias foi claramente verbalizado pelo dono de um quiosque ali na esquina, que disse, à boa maneira do piropo argentino, con una sonrisa así ya me alegraste el día!

Buenos Aires bye bye (1)

01_BsAs bye bye

Um dos meus espaços favoritos em Buenos Aires é, sem dúvida, o Malba, o Museu de Arte Latino-Americana. Tem uma planta quase triangular – ou pelo menos o átrio é triangular – o que o transforma imediatamente num edifício invulgar. O espaço é luminoso e cheio de reflexos, mesmo nos dias cinzentos. E na Primavera, os jacarandás em flor da rua ao lado enchem a vista do visitante.

A colecção permanente é interessante, mas vale sobretudo pelas exposições temporárias e pela animação cultural. A cafetaria era muito boa e acessível, agora é boa e muito cara.

Recuando no tempo*

*e voltando aos tempos da colónia de férias. E sim, é um grande retro-salto!

Quem é que daqui participou em colónias de férias de Verão? E quem daqui tinha as refeições embrulhadas em película aderente?

Pois eu tinha. E não havia maior diversão que fazer estalar pequenos balõezinhos peliculeiros e delirar com o barulho. Não havia. É que às vezes apanhávamos trânsito, a viagem demorava e as cantorias esgotavam-se. E ao final da tarde já estávamos todos demasiado cansados para passatempos construtivos.

O mesmo fenómeno se dá nos voos entre Buenos Aires e o Panamá. São sete horas de viagem desgastante feitas dentro de um avião para viagens curtinhas, muitas vezes sem uma televisãozinha sequer para passar o tempo. A Copa, valha-nos isso, é super pontual, mas não há volta a dar-lhe aos 5334km entre os dois pontos. É mesmo assim e pronto. A páginas tantas, já não há tricot, leitura ou podcasts que me salvem do tédio total e aí entra a parte dos estalidos com o plástico.

Na última viagem, o Príncipe, rapaz de reconhecida paciência, ria-se e documentava fotograficamente a cena. Os demais passageiros davam pequeninos saltos nos seus assentos a cada um dos estalidos. Divertido, mas durou pouco – não quero ser considerada uma ameaça à segurança aeronáutica. Era só um bocadinho de película aderente, mas nunca se sabe.

Verão molhado

Este Verão tem sido chuvoso. Tão chuvoso, que as ruas já se inundaram várias vezes, com direito a directos televisivos e perguntas idiotas do género como é que se sente a atravessar a Avenida Santa Fé com água acima dos joelhos? Molhada, como é evidente, uma pessoa sente-se molhada. Não é o fim do mundo.

Mas a sucessão de dias cinzentos, depois dos dias cinzentos (e frios!) em Portugal, está a pedir algo de alegria.

Aqui está. Presente da minha querida amiga F., acabadinha de chegar.

presente de uma amiga brasileira :)

Quem quer umas iguais ponha o dedo no ar.

Sagres

Sagres em Buenos Aires!

O navio-escola Sagres está de visita a Buenos Aires. Na sua viagem de circum-navegação participa nas celebrações dos bicentenário da independência de vários países, nomeadamente o da Argentina. Também cá estão navios de outros países e a Dársena Norte de Puerto Madero teve, este fim-de-semana, uma cara diferente.

A partida da Sagres para mais uma etapa da sua viagem de circum-navegação está marcada já para amanhã, mas durante a sua estadia aqui (e acredito que em todos os outros portos) abriu as suas portas ao público. Falo por mim, com as saudades que tenho de Portugal e de falar português a torto e a direito – ou será só de falar a torto e a direito? – visitar a Sagres e meter conversa com toda a gente é o meu programa ideal de Sábado à tarde.

E assim foi. Havia um mar de gente à espera para visitar os vários barcos atracados no porto, que estava lindo. Entre mastros e velas e arranha-céus, a paisagem porteña estava definitivamente diferente.

a bordo da Sagres

A bordo da Sagres, os marinheiros de serviço metiam conversa com os visitantes, ajudavam na subida e descida dos íngremes degraus e respondiam com infinita paciência a todas as perguntas que lhes faziam. Desconfio que, tal como nós, houve mais algumas pessoas que foram para lá exibir as suas t-shirts de Portugal e os seus xailes típicos, com vontade de destravar a língua e praticar as conjugações verbais lusas. Em terra onde sempre nos confundem com brasileiros (mais uma vez, não que isso seja um problema, só é é muuuuuito cansativo), receber uma embaixada itinerante é motivo de muita alegria.

Sagres em Buenos Aires!

Da cozinha do navio vinha um cheiro delicioso a peixe fresco. Enquanto salivávamos, um dos cozinheiros cortava lâminas a um polvo já cozido. Perguntámos-lhe de onde vinha aquela iguaria e ficámos a saber que foi trazido de Portugal. Quem diria? Mas, bem vistas as coisas, o pouco polvo que por cá se arranja também vem das nossas bandas (mais frequentemente, da Galiza). A dificuldade, mesmo, foi afastar-nos daquele polvinho que se deixava fatiar como manteiga… É verdade que na Sagres dão a provar as delícias da culinária portuguesa?, quisemos saber depois de ler o folheto que distribuíam aos visitantes. E sim, mas só às personalidades convidadas. E claramente o Sr. Embaixador não se lembrou de nós.

Sagres em Buenos Aires!

Uns suspiros de saudade mais à frente, vimos várias barricas de vinho que também fazem a viagem de circum-navegação. Desconheço que costume é este o de trazer o vinho a dar a passear (Tio Rui?), mas achei uma maneira bem interessante de o fazer envelhecer. Já imagino a descrição: …vinho circum-navegador, envelhecido em casco de carvalho, com toques de sal e de vento e um final de maresia. Já sabem, quando, no futuro, beberem um moscatel de Setúbal, procurem-lhe os vestígios da ondulação.

Dada a volta à Sagres ainda visitámos outras embarcações, mas não amor como o primeiro, que neste caso se deveria substituir por não há orgulho como o patriótico.

E, já no regresso a casa, registámos esta imagem:

Outra Sagres, também em Buenos Aires...

E esta, hein?

Mais fotos aqui.

Parabéns…

…ao filme “El secreto de sus ojos”, o filme argentino que recebeu o oscar para melhor filme estrangeiro. Quem não viu, vá ver!