Creativity Series: Ana Teresa Vale

Ana-Vale-Criatividade

Foto: Ana Teresa Vale

A convidada desta semana para nos falar sobre criatividade chama-se Ana Teresa Vale e é minha amiga há para cima de imenso tempo. Conhecemo-nos no ano em que fomos viver para Macau, em 1987, e desde então estivemos sempre em contacto.

Fiquei deliciada ao ler a definição que a Ana tem de criatividade. A Ana é psicanalista e mostra-nos uma visão muito interessante que coloca a criatividade muito a montante de qualquer execução que tenha que ver com as artes plásticas. Mas o melhor, mesmo, é lermos o que ela tem para nos dizer.

Obrigada, Ana, por partilhares aqui a tua definição de criatividade!

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“Há uns anos atrás, ficava toda aflita, sem saber o que fazer. Ontem, ri-me e fiz uma piada, e continuei calmamente como se nada fosse.” Uma mulher jovem fala-me da forma como encarou uma situação que antes lhe provocava uma enorme angústia, e que agora resolve de forma criativa, usando o sentido de humor.

“Sonhei que estava com dois amigos numa sala a fazer um exame. Dizem-me que é preciso ir buscar qualquer coisa que está na arrecadação, mas isso é muito, muito lá em baixo. Vou com os meus amigos e descemos, descemos, descemos, as escadas nunca mais acabam! Tenho a sensação de estar num barco, porque parece que desci tanto que já estou debaixo de água. Encontro então a porta da arrecadação, lá dentro está muito escuro, e sinto medo do que posso encontrar. A dada altura, sinto uma mãozinha que sei que não é de nenhum dos meus colegas e fico com muito medo. Entretanto, os meus olhos já se habituaram ao escuro e consigo ver alguma coisa na escuridão; vejo um ser, um ET pequeno, verde fluorescente, que parece ter ficado zangado por eu me ter assustado, que se afasta a fazer beicinho.” Nunca deixo de me espantar com a criatividade dos sonhos! Neste caso, uma outra jovem mulher comunica-me cinematograficamente o seu medo de descer ao “fundo do mar” dentro de si, porque tem medo do que pode encontrar e receia não saber como comunicar com os seus aspetos interiores.

No meu trabalho como psicanalista, dou muita importância à criatividade – não só àquela que associamos com a arte, a música, a literatura, mas também à criatividade do dia-a-dia, a que usamos no quotidiano para trabalhar as emoções que nos podem provocar dificuldades, conflitos, inibições, bloqueios. Aquela que usamos para encontrar formas de sair desse estado mental paralisante ou desconfortável.

Portanto, todos nós somos criativos. É onde deixamos de o ser que surgem os problemas, é aí que nos vemos a repetir as mesmas situações, a viver os mesmos cenários, a sentir as mesmas emoções recorrentes.

Quando as pessoas procuram um psicólogo ou um psicanalista, é porque têm um problema que não conseguem resolver sozinhas. Ou dito de outra maneira, as suas estratégias de resolução dos problemas emocionais deixaram de funcionar – e não conseguem encontrar outras novas. A capacidade de inventar novas soluções para lidar com os desafios da vida (interior e exterior) é o que eu chamo de criatividade. E essa capacidade pode ficar bloqueada com a presença de determinadas emoções – tipicamente, afetos intensos de dor, angústia, zanga, ressentimento.

Na psicanálise, a pessoa vai compreender e transformar essas emoções, para poder libertar a sua criatividade. Não quer dizer que estes sentimentos sejam abolidos da sua vivência (afinal, fazem parte da experiência humana), mas vai construir formas novas de sentir e soluções mais criativas para as questões que se lhe colocam na vida, na relação com os outros e na relação consigo própria.

E a criatividade dos artistas? Essa, para mim, é só uma das formas de expressão da criatividade do ser humano. É sem dúvida uma forma valiosa e culturalmente relevante; a nossa sociedade não seria a mesma sem ela – e seria infinitamente mais pobre. Mas é apenas mais uma forma de tentar encontrar novos modos de olhar para as emoções e para a condição humana. Do ponto de vista estritamente individual, não é nem melhor nem pior do que dizer uma piada ou sonhar um sonho.

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Obrigada, Ana!

Este texto faz parte do projecto Creativity Series, onde peço a amigos que partilhem a sua definição de “criatividade”. Gostaria de participar? Escreva-me um mail. Para receber estes posts na sua caixa de correio, clique aqui.

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