Guia de sobrevivência

Perfectly blue on a #perfectblue #lisbon day.

Este blog vive um pouco abandonado pelas circunstâncias de todas as mudanças que estão a acontecer na minha vida. Por um lado, a chegada dos caixotes com as nossas coisas. Do apartamento tipo salão de baile em que vivíamos no Panamá, viemos para um apartamento com um terço do tamanho, ou seja, voltámos àquilo a que sempre chamámos de vida real (e que também tínhamos em Buenos Aires, atenção).

Além disso, estou também a mudar-me para o meu novo atelier, pintura de paredes incluída, o que significa dias de trabalho físico e poucos momentos para me sentar a escrever. Os poucos que tive foram canalizados para os meus artigos semanais no Portugalize.me. Diria que estive em serviços mínimos.

Aos poucos, no entanto, as coisas regressam à normalidade e a nova rotina começa a desenhar-se. O atelier está quase pronto, e a mudança está para breve. Em casa já começámos a cozinhar e a fazer bolos.

(Abro um parêntesis para aqui partilhar que certo bolo de laranja que fiz para o Dia da Criança, no Sábado passado, foi muito apreciado e mais agradecido por certa menina de quatro anos. Tia babada ainda mais babada.)

Mas voltemos ao assunto deste post.

Ontem tivemos a companhia ao jantar de um amigo que se prepara para uma nova experiência internacional, depois de ter estado dois anos a viver em Lisboa. A dada altura, quis saber quais estavam a ser as primeiras impressões do nosso regresso a Portugal. Hoje, ao reflectir sobre as respostas que lhe demos, fiquei a achar que podia compilar um Guia de Sobrevivência à Psique Nacional.

Mas antes de enumerar os pontos deste Guia, quero aqui fazer um esclarecimento inicial: esta crise é absolutamente horrível; as pessoas estão cada vez com o orçamento mais apertado; há quem esteja em situações incrivelmente vulneráveis; há uma nova pobreza envergonhada que é uma tristeza. Haver uma só pessoa com fome é intolerável; e infelizmente há muito mais que uma.

Posto isto, considero que há certos traços da psique nacional que são muito anteriores à crise. Por um lado, nota-se que há uma grande camada da população que, no aperto, tem de se atirar de cabeça para o desafio. Parece-me positivo e noto que existe uma grande mudança de mentalidade numa boa camada da população.

Por outro lado, e é aqui que o Guia de Sobrevivência entra, continuam a persistir certos traços do carácter típico português. Entendo que muitos desses traços vêm dos longos anos de ditadura; mas haver uma explicação não significa que esse comportamento seja imutável ou mesmo justificável.

Entro por isso no primeiro ponto do meu Guia de Sobrevivência: não ver notícias. Nenhumas. Chamem-me desinformada, porque não? Escolho não ligar a televisão à hora do noticiário porque não quero consumir notícias dadas de forma a deprimir ainda mais quem as vê. Exerço o meu direito de escolha lendo os jornais online e seguindo vários órgãos de informação no twitter, onde controlo quais os artigos que vou ler e as reportagens que vou ver.

Como vêem, em vez de desinformada prefiro selectiva.

O segundo ponto no meu Guia de Sobrevivência é não fazer queixinhas. Quero aqui fazer uma distinção importante entre aquilo a que chamo queixinha e a reclamação: a primeira é aquele desabafo resmungueiro e frustrado para o ar, que geralmente inclui o pronome “eles” para reflectir a impotência do próprio em relação à situação. Ou seja, está tudo péssimo e a culpa é de um “eles” impreciso. A segunda, a reclamação, é aquela em que se faz algo, independentemente de vir a dar frutos ou não, para manifestar o desagrado junto das autoridades competentes.

Dou um exemplo: no final da semana passada, descobri que me faltava o anexo SS na declaração de IRS. Não nego: senti-me indignada por ter visto a minha declaração ser validada pelo sistema e afinal faltar-lhe um anexo. E que a falta de apresentação do dito me faria incorrer numa coima que, naturalmente, não me apetecia nada pagar. Não sei se fomos muitos ou poucos a fazê-lo, mas apresentei uma reclamação junto da Autoridade Aduaneira e Tributária. O certo é que houve um alargamento do prazo para a apresentação do referido anexo. E não, a reclamação não precisa de ser presencial, em papel azul de 25 linhas: a minha reclamação foi feita por twitter (e também já fiz outras por e-mail e por telefone).

Resumindo, o meu compromisso comigo própria é que para haver uma queixinha em momento de desabafo, tem de haver uma reclamação, uma acção minha para tentar mudar as coisas. Pode não resultar em nada, mas pelo menos sinto que agi.

O terceiro ponto no Guia de Sobrevivência é afastar-me de pessoas com complexo de vítima e rodear-me apenas de pessoas lutadoras e empreendedoras. Pode parecer cruel, mas a vida já é complicada por si mesma, não preciso de ainda ter pessoas a puxarem-me para baixo. Por isso, resmungões, mal dispostos e queixinhentos, muito obrigada, mas não. Quero é estar com pessoas empreendedoras, lutadoras, optimistas. E todos, todos temos direito a momentos de cansaço, de tristeza e de desespero; mas enquanto uns decidem colocar o poder de mudar a situação na mão de terceiros (ou seja, as vítimas), outros decidem que vão fazer o que podem – que às vezes até nem é muito – para mudar a situação em que vivem. É deste grupo de pessoas que me quero rodear.

E vocês? Têm pontos a adicionar a este Guia de Sobrevivência?

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5 comments

  1. Estou absolutamente de acordo com todos os pontos do Guia de Sobrevivência. Não vejo notícias há anos e anos (tal como tu, sigo o que me interessa na internet), bem muito antes da crise se instalar desta maneira feroz. Acrescento um ponto ao guia: fazer o luto do que tivémos ou vivemos no passado para aceitar o que temos e vivemos no presente. Não é fácil, mas há que fazê-lo. O luto social e pessoal perante a crise é indispensável.

  2. sara says:

    ah muito bom! eu tenho a minha tv para venda e cancelei o cabo!
    a minha sugestão

    valorizar o que se tem, não no que falta.

    ser menos fadista (ou seja menos dramático) com os eventos da vida!

  3. Billy says:

    Olá Sara, obrigada pelas tuas sugestões. Acho que já somos muitos a evitar as notícias; será que as televisões um dia vão entender o que isso significa?

    Beijinhos!

    Obrigada, leitora de Macau! Um beijinho.

  4. Dora says:

    Sim, uma sugestão: apreciar o que a nossa cultura tem de bom. Somos um povo com algumas fraquezas de carácter, bastante expostas nesta altura penosa, mas temos muitas coisas da nossa alma colectiva, e do espaço físico do nosso país, e dos dois juntos, que só nos podem deixar felizes por estar aqui.

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