Há feiras e feiras

Esta semana, aqui na Cidade do Panamá, decorre uma feira da legalização promovida pelos serviços de migração, para proporcionar uma oportunidade de regularização àqueles que se encontram em situação irregular. Normalmente são pessoas de países circundantes, da América Central, que emigram para o Panamá, onde a divisa de facto é o dólar.

(Cumpre aqui abrir um parêntesis para explicar que uma das negociatas dos tempos do canal implicou que a moeda nacional, o Balboa, fosse sempre equivalente ao dólar, e que o papel moeda que circula seja o dólar. Cá no Panamá há emissão de moeda metálica, com tamanhos e valores iguais aos da moeda metálica dos Estados Unidos. Fecha parêntesis e segue.)

A miragem do dólar permite, portanto, a muitos destes emigrantes terem salários com os quais não poderiam sonhar se estivessem nos seus países de origem. Muitas vezes com uma educação ao nível do ensino primário, estas pessoas vêm fazer trabalho doméstico ou de “nanas”, tornando-se muitas vezes nas educadoras das crianças de muitas das famílias locais e radicadas no Panamá.

Estes imigrantes são alvos fáceis: de posição muito humilde e com muito poucos recursos para lutar pelos seus direitos, acabam por rapidamente exceder a validade dos seus vistos de entrada no país e ficar em situação clandestina.

Na rua, por incrível que nos possa aparecer, há polícias a pedir a identificação aos transeuntes (curiosamente, não aos extraordinariamente mal educados condutores, que muitas vezes nem encartados são), o que acaba por colocar estas pessoas numa situação ainda mais vulnerável.

Mas o Panamá precisa destes emigrantes e por isso, apesar de não lhes fazer a vida muito fácil, organiza feiras de legalização periódicas. E aqui chegamos ao presente.

Começou na segunda-feira passada mais uma feira da legalização. Para terem uma ideia, uma empregada doméstica cá tem um salário de 300 dólares, mais coisa menos coisa, e o investimento para terem a sua situação regularizada – por apenas dois anos! – é equivalente a mais de quatro salários. Sabem o que isso significa? Que não tendo acesso a crédito, precisam de um patrão que aceda a adiantar o dinheiro para que possam sonhar com andar pela rua tranquilas.

Mas as dificuldades não acabam aqui: também precisam de um patrão que as liberte uma semana inteira, já que a feira é tão desorganizada que as pessoas fazem filas desde Domingo, dormem lá, tiram senhas, esperam, revezam-se para poderem ir comer ou à casa de banho. Hoje, sexta-feira, e já passados quatro dias inteiros, dizem que talvez amanhã, sábado, pela uma da tarde, estejam despachados.

Que dizer? O panorama é este, e as pessoas que recorrem a estas feiras estão numa situação tão vulnerável que não ousam queixar-se. O que querem é sair de lá com o tão desejado carimbo no passaporte, para poderem estar tranquilas. Por apenas dois anos.

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2 comments

  1. Anonymous says:

    Aqui mesmo ao lado, na Caparica, também se param e identificam imigrantes na rua, com direito a prisão se não estiver tudo em ordem, mas o que contas realmente nem sonhava que podia existir 🙁
    fungaga

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