Há sempre "alguito" que contar

Cada vez que necessito recorrer aos correios panamenhos saio da estação com material para mais um episódio da grande, recorrente e repetitiva telenovela subordinada ao tema “podia ser fácil mas por que não ser difícil”.

Precisava enviar duas cartas. Duas. Não precisava de pagar o apartado, nem pagar contas, nem levantar a minha reforma, nem nenhuma remessa de dinheiro. Duas cartas, nada mais. Quando cheguei, às onze da manhã, tinha oito pessoas à minha frente. Já sei que cada pessoa leva, mais coisa menos coisa, dez minutos a ser atendida. Prometia.

Apesar das oito pessoas à espera, em pé, só havia um balcão a funcionar. No fundo, vários funcionários trabalhavam (ou não) e atrás das caixas de apartado ouvia-se muita converseta. Esperei e esperei; a fila ia-se movendo, muito lentamente. No Panamá, os reformados têm prioridade no atendimento público, por isso, quando chegou um senhor de cabelo branco (que seria atendido depois de mim), foi atendido à frente dos restantes clientes, que continuavam pacientemente à espera.

Às tantas, apareceu um senhor semi-executivo, cheio de pressa. Amigo da chefe de estação, de agora em diante conhecida como generala, chamou-a e ela veio, toda querida e simpática. O senhor precisava de pagar o apartado, e não tinha muito tempo, ao que ela prontamente respondeu que não se preocupasse. Foi buscar a ficha dele ao arquivo, recebeu o dinheiro, prometeu-lhe o recibo entregue no respectivo apartado e que não se preocupasse. O homem, recado despachado, abalou.

E nós à espera.

Fui ao balcão e dirigi-me à generala, para com muito respeito dizer que não era justo que atendesse o senhor quando nós estávamos ali todos à espera havia vinte e cinco minutos, já para nem falar do facto de haver só uma pessoa a atender e tantas no trabalho de bastidores.

A generala, que não gosta de ver a sua liderança contestada, ficou uma fera: que não tinha atendido o senhor coisa nenhuma, mi amor, que não podia ter mais gente ao balcão porque a estação estava em remodelações, mi amor, eu que lesse os letreirinhos todos (ela usou o diminutivo), que sempre que lá ia tinha “alguito” que dizer, que eles até me tinham oferecido o apartado, mi amor.

Na fila, ninguém dizia nada. Eu, se há coisa que deveras aprecio é que me tratem com condescendência e me façam de parva: que ninguém me oferecia absolutamente nada e que eu pagava o apartado; que via o funcionário a atender em mais que um balcão, só que só havia um funcionário para três guichets, e que finalmente se eu tinha “alguito” que dizer era porque ela estava ali para me prestar um serviço que eu pagava e que se o serviço não era bom eu tinha todo o direito de fazer uma reclamação.

A troca durou uns minutos mas depois tive de me ir embora porque tinha outro compromisso. Quando voltei, o funcionário que me atendeu foi ainda mais amável do que é habitualmente. Acho que lá na estação alguém ficou contente por ver a déspota a ser posta no seu lugar.

Chego à conclusão de que cá no Panamá o que importa é quem fala mais alto. E que muito pouca gente ousa falar.

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5 comments

  1. Anonymous says:

    Isso é Portugal há 30 anos atrás, tal e qual… como dizia no post anterior, as mentalidades mudam devagar, mas eu acho que vale sempre a pena não ficarmos calados. Até porque, muitas vezes surgem solidariedades inesperadas.
    Beijinhos,
    fungaga

  2. Anonymous says:

    Gostei do “alguito”. Então, minha ingrata, que tens a dita de ter um apartado, concedido pela gentileza da generala, atreves-te a criticá-la? Tens sempre “alguito”? Olha a tua reputação, rapariga!
    Beijinhos
    M

  3. Anonymous says:

    Boa, Billy, assim e’ que e’! Que orgulho!:)
    Que nervos que me dao estas pessoas que nao estao habituadas a ser postas em causa…
    Beijos,
    Celia

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