Coisas às quais não me consigo adaptar

No fim-de-semana passado estivemos a ver o filme “The Help”, que conta as muitas histórias de como as empregadas de limpeza – negras – eram tratadas pelos seus empregadores brancos nos Estados Unidos. Os episódios contados pelas empregadas são o retrato de uma realidade que existiu até há pouco tempo nos Estados Unidos e que, infelizmente, continua a existir no Panamá.

Ontem, esperávamos a chegada da empregada às sete e meia da manhã. Contrariamente ao que é habitual neste país, ela é do mais pontual que existe: chega sempre antes, e depois faz tempo para tocar à campainha à hora certa. Por isso estranhei terem passado dez, quinze, vinte minutos. Nada.

Chegou trinta minutos depois e explicou-nos que no rés-do-chão a tinham retido, bem como às outras empregadas que entretanto se foram juntando. Confesso que não estava a entender porquê, mas sei que para alguns dos meus vizinhos a entrada no prédio deve ser mais vigiada que uma alfândega. Aqui, já espero tudo, por razones de seguridad.

Tudo, tudo, não: impediram-lhes o acesso porque àquela hora os funcionários do edifício estavam em plena recolha do lixo, usando o elevador de serviço. Ora a torre em que vivemos dispõe, para além deste elevador, de dois elevadores “principais” (ou seja, para os residentes). Concluindo, estas mulheres tiveram de esperar lá em baixo porque os funcionários da recepção, a mando da administração do condomínio, não as autorizaram a usar estes dois elevadores, que estavam desocupados. Porquê? Porque “empregadas e animais” (e, aparentemente, os próprios funcionários) não os podem usar.

Há dias em que não tenho palavras para expressar o desprezo que sinto por aquelas pessoas que, ao sentir que têm um dedinho de poder, o usam da forma mais autoritária, imbecil e dominadora possível.

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8 comments

  1. Joao Q says:

    Diz a gente que Panamá é um crisol de raças, e isso é uma grande verdade, mas há uma situação de discriminação real que além de ser causada por o cor da pele, tem a suas motivações socioeconômicas e culturais.

    Como bem diz você nas suas ultimas linhas, cá parece que quando as pessoas tem um pouquinho de poder tornam-se muito estúpidas, olhe o nosso governo e veja o que está acontecendo.
    Saudações!

  2. Karen says:

    Billy, você sabe que o mesmo ocorre no Brasil? Os proprietários dos apartamentos não permitem que os funcionários usem o elevador “social”, apenas o de “serviço”.

    Criticamos a divisão de castas da Ásia, mas ela existe também aqui, só não recebe o mesmo nome.

  3. Roselaine says:

    Vc comhece o Brasil? É exatamente assim. O pior, é que aqui mesmo quem é pobre, se acha melhor que outros pobres, apenas por não ser negro.

  4. Anonymous says:

    Billy, há muito tempo que cê não tinha tantos comentários num post, né?
    Cê tem razão: o poder (ou a simples ideia de que se tem algum) dá às pessoas características péssimas. A gente vê o filme e acha que aquilo é passado, mas é ainda presente para muito povo. Tenha esperança de que o século XXI vai mudar mais um pouco as mentalidades.
    Bjs.

  5. Billy says:

    Em primeiro lugar, obrigada a todos pelos vossos comentários. Respondo agora um por um:

    João Q: é isso mesmo. Ser um país multi-racial é apresentado como uma vantagem, como se se tratasse de um país tolerante onde a diferença é respeitada. Mas quem vai ao centro e vê como as índias (kuna? Não quero errar nisto!) são tratadas nas lojas, por exemplo, sabe que a igualdade ainda não chegou.

    Karen: não sabia, mas não me surpreende. Na Argentina era a mesma coisa. Só que quando cheguei ao Panamá dei conta que a diferença entre “serviço” e “social” era maior que lá. Por exemplo, o quarto da empregada, aqui em casa, não tem luz natural e o duche é só de água fria. Sabes o que me dizem? Que isto é, ainda assim, melhor que as condições em que estas mulheres habitualmente vivem!

    Maio: falamos tanto da desigualdade, etc, etc na Europa, mas chegando à América Latina deparamo-nos com um nível totalmente diferente de injustiça social. Como diz a Ahimsa no comentário que deixou, há coisas a que nunca nos devemos habituar.

    Ahmisa: tens razão.

    Fungagá: o teu primo disse-o bem!

    Roselaine: uf, parece que a cadeia do preconceito não termina nunca! Que podemos fazer para mudar a situação? Tens alguma ideia que queiras partilhar?

    Anónimo: é verdade, tens razão. Este post tem gerado mais comentários e tweets que qualquer outro assunto sobre o qual vou escrevendo. Será porque mais pessoas se indignam com estas injustiças aceites como “normais”? Também tenho esperança de que as mentalidades vão mudando; suponho que esse é um esforço colectivo.

    Beijinhos a todos.

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