Month: July 2009

Um país sério?

Ontem estava a ouvir o podcast do Governo Sombra, da TSF, em que se comenta o (lamentável) episódio dos corninhos no hemiciclo português. Confesso que, apesar de muito lamentável, eu não consigo parar de rir com a cena e tenho até alguma curiosidade de saber o que terá passado pela cabeça do (ex-)ministro no momento em que os fez.

Mas o que interessa aqui foi um comentário que foi deixado no jornal Globo, que dizia: “em país sério é assim: faz palhaçada, dança.” (no minuto 14 do podcast). Este comentário foi lido durante a reunião do Governo Sombra e foi amplamente comentado pelos participantes que, com muito humor, se referiram à parte em que Portugal era visto como “país sério”.

E é aqui que eu quero chegar. Bem sei que a minha visão está já nublada por meses de ausência e milhares de quilómetros de distância, mas às vezes estes são factores que nos permitem avaliar melhor o avanço ou retrocesso de um país.

De uma forma geral, os portugueses acham que o seu país não é sério e fazem “desabafos” para o ar, perfeitamente inconsequentes, da forma menos eficaz possível. Por exemplo, quantas vezes ouvimos dizer “isto é tudo uma bandalheira”, ou “eles são todos iguais” ou “eles são todos uns corruptos”, referindo-se à classe política em geral. Não vou dizer que tenho uma imensa simpatia pelos políticos, mas a verdade é que eles estão onde estão porque foram eleitos.

Ora bem, aqui chegamos à parte em que Portugal, que pode não ser um país sério para muita gente, é um país onde as eleições são um dever e não uma obrigação (ao contrário da Argentina ou até da Austrália, onde o voto é obrigatório); Portugal é um país que tem uma Comissão Nacional de Eleições que organiza e supervisiona o acto eleitoral, que produz boletins de voto universais e que controla o acto eleitoral para que não existam fraudes.

Só para pôr esta situação em perspectiva, uma situação que parece natural e óbvia para os portugueses, aqui na Argentina os boletins de voto são responsabilidade dos partidos; não há cruzinhas em quadradinhos: o voto faz-se pondo o “cupão” do candidato em questão dentro do envelope. E, atenção, nem todos os boletins de voto chegam a todas as câmaras, seja por falta de dinheiro, de controle, por sabotagem ou por fraude. Ou seja, se um cidadão que vai cumprir a sua obrigação de voto quer escolher um candidato X e o “cupão” desse candidato não chegou à câmara de voto, então não vai poder votar nele.

Voltando ao facto de os portugueses, em geral, não acharem que Portugal é um país sério, tenho a dizer que acho que, em geral, os portugueses queixam-se muito mas nos sítios errados. Ou seja: queixam-se muito para o ar, para obter a empatia do ouvinte (exemplo disso são as paragens de autocarros!) mas agem muito pouco. Um exemplo: outro dia recebi um email com uma petição para os direitos dos cegos. Pediam para assinar e, quando o total de assinaturas perfizesse o milhar, para reencaminhar para outro sítio qualquer. Por curiosidade, passei os olhos pelos nomes que já lá estavam e vejo isto:

961- Isabel Xxxxx – Xxxxx (é de lamentar quão mal está este país embora para os “nossos” (des)governantes isto esteja tudo porreiro, pá!)

Para mim, este é o típico desabafo “ao lado”. Aquela crítica que não só não é construtiva como também não faz absolutamente nada para melhorar a situação. Quantas vezes escutamos as queixas das pessoas relativamente aos transportes públicos, ou aos serviços? E quantas dessas queixas são deixadas nos livros de reclamações obrigatórios por lei? Mais, quantas dessas pessoas é que vão realmente votar e usar o instrumento básico da democracia? Quantas pessoas participam activamente na sua freguesia ou no seu município? Quantas denunciam o incumprimento da lei através dos instrumentos postos à disposição do cidadão? Porque Portugal, que para muitos não é um país sério, tem uma justiça que tarda (muito) mas vai funcionando; tem um sistema de saúde pública que é velho, mas que continua a dar melhor assistência que o privado, sobretudo quando se trata de casos fora do comum; tem transportes públicos onde o utente é tratado com respeito; é um país onde a mentalidade vai mudando gradualmente e hoje já se respeita quem sobe na vida por mérito ou quem cumpre as suas obrigações.

É também um país onde as pessoas, de uma forma geral, se desresponsabilizam e preferem não agir e criticam em vez de mudar. E são estas pessoas que fazem de Portugal um país menos sério.

Conversa entre tia e sobrinha II

Noutro dia, numa conversa skypica com a minha sobrinha mais velha, estávamos a ver os trabalhos que tinha feito durante o ano na escolinha. Deixem-me que vos diga, a minha sobrinha é muito talentosa, aquela miúda vai ser uma artista. Digo eu, não sei, ideias minhas, mas parece-me que sim.

Ora estava precisamente a dizer-lhe isso, que ela era uma artista e ela, na segurança inabalável dos seus quatro anos, responde: “pois sou!”.

Tomáramos nós em adultos acreditar nos nossos projectos com a mesma intensidade! A começar por mim, claro está.

Já tinha saudades!

É a verdade verdadeira: já tinha saudades deste blog. Quem diria, ter saudades de um blog?

Os dias têm-se sucedido a um ritmo vertiginoso e, felizmente, trabalho não me tem faltado. Além disso, o pânico pela gripe já está a acalmar e as actividades voltam paulatinamente à normalidade. Na semana que vem tenho o exame de alemão, o mesmo que era para ter sido na segunda-feira passada e foi cancelado. Aulas de pintura, só em Agosto. Mas entretanto têm surgido projectos de trabalho daqueles que mais parecem de tempos livres, daqueles que dão tanto gozo que apetece até levantar mais cedo da cama (e é Inverno!) para me sentar a trabalhar.

(Sim, devo estar doente, apanhada de alguma gripe estranha! Eu, sair mais cedo da cama? Está tudo louco? “Chove como na rua”, diria a minha Mãe.)

E pronto: os dias passam num instante, quando dou conta já é hora de desligar o computador e ir conviver com o Príncipe, que por si só até nem chega muito cedo a casa. Deixa cá ver se consigo pôr os posts que tenho escritos mentalmente no caderno de notas virtual.

Espero conseguir voltar em breve!

Enchastrating

Oh, how I love to use newly acquired words (enchastre) and modify them to suit me (enchastration)! One of the things I clearly stated as a personal objective when I came to live in Buenos Aires was to sound, as much as possible, as a local speaker. We all know it isn´t that easy, specially to master a new accent for an already known language when you´re a grown-up, but still, I´m trying.

One of the things I love to learn is new words, specially those that aren´t taught in language classes; not necessarily cursing, but, you know, slang. It´s good to know some slang, specially to understand when taxi drivers talk to me. Or teenagers – not that I know many teenagers here. Or basically everyone.

So enchastre means… well, it means what it means and I decided to call these yarn handpainting session the “echastration”. I hope at least one argentine reader will care to explain its meaning.

Following Joji´s directions we all put on gloves and got ready to paint.

This is what the wool looked like before the enchastration began:
Before the enchastre

Some colours waiting to be applied:
colours prepared

What my skein looked like:
violet and blue

Though the blue washed out a bit after rinsing, I´m still very happy about the whole experience (and the possibility to distort a word, of course). The dry wool is now waiting patiently for me, with the good care of my friend Virgi.

Andre, who was also there, has a voting going on about wether or not we´d want her to do a podcast. Please, go there and vote on “Me encantaría”!

The rest of the photos live here.

Cut, cut, cut

peeling the sketch from the cut out paper

Lots of cutting activity around here, as my friend A. – who authored the texts – and I are preparing to contact publishers to present our ongoing book projects.

We´re learning a lot along the way and are hoping to get a positive answer, despite the economical crisis the world (and publishers, obviously) is going through.

We´re compiling a list of guidelines we´re gathering for submitting work to publishers and I´d love to hear your thoughts and experience. Please comment or email me!

More photos of the illustration process here.

Outro fim-de-semana de reclusão?

Central Park Hoodie
Costas do Central Park Hoodie que estou a tricotar.

Aproxima-se um fim-de-semana mais ou menos prolongado. Parece que ouço perguntar “como é que é isso de mais ou menos prolongado?”. A resposta não é simples – nunca é – mas prometo que me vou esforçar.

Ora, como todos sabemos, estamos a viver uma “preocupante crise sanitária” (são expressões destas que se ouvem aqui a torto e a direito, e eu a ligar “sanitário” a outras coisas). A verdade é que os dados da Organização Mundial de Saúde não enganam: a proporção entre vítimas mortais e infectados com o vírus da gripe A é maior aqui que nos outros países. E isto, para além da óbvia tragédia que é para as famílias de quem foi ou está a ser tocada pelo vírus, é também uma grande dor de cabeça para as autoridades (sanitárias e não só).

(Nota: ontem recebi uma chamada telefónica em que me fizeram todo um inquérito sobre a prestação do governo, a situação da Argentina, a inflação, a corrupção… foi tão bom ter aquele bocadinhozinho de tempo de antena em que pude classificar como entendi cada um dos itens dados pela operadora, sem que ninguém me acusasse de ser estrangeira, ou, pior ainda, europeia!)

Voltando ao fim-de-semana quase prolongado, amanhã é feriado, dia pátrio, daqueles que não são transferidos para a segunda-feira mais próxima. Sexta deveria ser dia de trabalho normal, mas o governo decidiu instituir um “feriado sanitário” ao qual muitas empresas deverão aderir, pelo menos na modalidade de ter os seus colaboradores a trabalhar a partir de casa.

Para quem não está habituado a estas andanças (as de trabalhar a partir de casa), um feriado sanitário vai ser isso mesmo, um feriado. E o resto é conversa.

Por mim, tudo bem: tenho livros, tricot e… ah, trabalho! para fazer.

Agora giro, giro, giro mesmo era que acontecesse o que aconteceu há dois anos atrás: um nevão aqui na cidade a 9 de Julho! Mas fim-de-semana mais ou menos prolongado já não é mau.

Stash

alpaca, hand-spun wool and merino

These are the latest additions to my (just manageable) stash: single-ply alpaca yarn on the left, hand-spun wool in the middle, and pure merino on the right. As usual, there are no yummy names for these yarns, so do leave a comment with a couple suggestions. Candy names accepted.

Sidenote to add: tomorrow is a national holiday and a “sanitary holiday” is to be established on Friday, to avoid further expansion of the swine flu virus. Which means – and I´m doing my best to look at it from the bright side – knitting time!

Fim-de-semana de reclusão (ou talvez não)

Cá por estas bandas anda um alerta generalizado pela gripe A. E olá se há muito para contar sobre o assunto! Começando pelo princípio, até ao dia 28 de Junho, dia das eleições, não houve gripe. Não é não houve gripe nos media, não, é não houve gripe. Houve um bocadinho, aqui e ali, mas estava tudo controladíssimo.

No dia 28, os resultados das eleições dão um valente golpe na confiança da dinastia K. No dia 29, aparece a gripe. Em força. De repente, há milhares de infectados, centenas de casos graves e dezenas de vítimas mortais. Alguns canais de televisão falam em 100 000 infectados e hoje o dado é de 55 mortes confirmadas. Encerram-se escolas, antecipando as férias de Inverno, e fala-se em fechar lojas, centros comerciais, cinemas e teatros.

Ora nesta altura do campeonato decido ir consultar o site da Organização Mundial de Saúde, mais especificamente os dados relativos ao dia 3 de Julho. Quantos infectados na Argentina? 1587. Vítimas mortais? 26.

Sem querer de alguma forma desrespeitar as memórias e as famílias de quem faleceu vítima da gripe (ou vítima de outra doença pré-existente, que foi agudizada pela gripe), convenhamos que 1587 infectados está muito, muito longe dos 100 000 de que tanto se fala.

Um dos primeiros artigos que li no início da histeria pela pandemia da gripe suína comparava a mortalidade da gripe A com a mortalidade da malária, dizendo que esta matava uma pessoa cada 30 segundos. O problema é que as pessoas que morrem por malária vêm de países pobres e acabam por não constituir de forma alguma uma preocupação para quem vive em países mais desenvolvidos. Digamos que a malária não é tão rentável como… uma gripe.

Quem ganha com a instalação do pânico da gripe? Ganha quem produz as drogas anti-virais, o álcool em gel, as máscaras; no caso argentino, e quiçá também noutros contextos, ganhará também quem usa a história para desviar a atenção da opinião pública da realidade política que se vive.

Os media locais vivem da veiculação da cultura do medo: é a questão da insegurança, com as notícias sensacionalistas de assaltos e tiroteios que preenchem telejornais inteiros (a par com o futebol e o tempo); agora, a gripe, que ofusca toda e qualquer notícia que possa ter alguma relevância (passou-se por alto o “episódio” das eleições no Irão; do conflito no Sri Lanka?… o que é o Sri Lanka? Conflito?). Como será quando chegar a Primavera e aumentar o risco da dengue? Ora aí está uma coisa que me preocupa, já que morre mais gente por dengue que por gripe!

Com toda esta paranóia, no Inverno do ano que vem vou esperar que se fechem as escolas durante um mês, se adiem exames e que se fechem lojas e cinemas, já que, afinal de contas, todos os anos há uma gripe no ar.

Tenhamos cuidado e prudência, mas nada de pânico!

Weekend reading

weekend reading

I recently bought these two titles from The Book Depository. Their service can only be recommended for it is quick and effective: books arrived safe and sound, each in its own envelope, which means I didn´t need to go pick up a package from Customs, pay storage fees there and wait for hours until all steps and procedures were completed. No. And the fact that postage costs are covered by them, that even makes it better! Great books are very accessible and are delivered to your door (they were to mine!).

The books bought are: "Whatcha mean, what´s a zine?" by Mark Todd and Esther Pearl Watson, and "Indie Publishing", edited by Ellen Lupton. I´m almost finishing the first one and can´t wait to have to get to the second one.

I think that this weekend will be a great opportunity to get to it, since authorities are recommending isolation to avoid swine flu spreading (even more). All events are being cancelled in town and several cities in the country have already shut down shops and malls. It feels a bit weird and, really, we don´t know anymore which information is true and accurate, so having things to do indoors will be a very good distraction.

Fortunately this week I got to go yarn shopping with Joji and my stash will certainly keep me entertained for the coming days!

(Hmmm, will the upcoming german exam be postponed too?)

Edited to add: Have a great weekend!

Short-listed!

Sydney Opera House

I´m so happy to share with you that the photo above, which I took during the Backstage Tour of Sydney´s Opera House, was short-listed for inclusion in the city´s virtual travel guide Schmap. Yay!

Usurpando

DSC03782

Usurpando totalmente o gorro a seu dono, mostro aqui o passa-montanhas terminado. Agora só falta mesmo é a neve.

(E a etiqueta!)

Uma manta? Ou um saco de tricot?

Blanket? perhaps knitting bag?

Ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que já parece um menir, daqueles que o Obélix transportava, só que em vez de ser às costas é ao colo. Quando a tricoto, tapo as perninhas e os joelhos, que isto o frio ataca à séria e o Inverno (a idade?) não perdoa. Como estou a usar lã pura, as mãos ficam quentinhas e, de caminho, bastante hidratadas com a lanolina que ainda sobra nas fibras.

Acho que depois deste post é que me vão chamar, sem sombra de dúvida, avozinha.

Como dizia uma lenda urbana, com um encolher de ombros: é a vida, menina, o que é que se há-de fazer?