"Meeeeeeedo!" ou "a cultura do…"

Aqui por estas bandas – aliás, como em muitos outros sítios – existe uma cultura do medo. Quem liga as notícias depara-se com reportagens (“reportagens” talvez não seja o termo mais indicado, chamemos-lhes “peças”), digo peças de um quarto de hora ou mais, em que se conta ao pormenor o “crime de Berazategui”, ou o “de Recoleta”, ou outro qualquer.

Ao darem a notícia, não respondem ao “onde, o quê, quem, quando” iniciais, mas esmiuçam o “quem” e o “como” como ninguém. De tal forma que, mesmo sem terem dados concretos, falam de tudo quanto se pensa que é certo, como se fosse certo. Explicam as facadas, as armas disparadas, as pauladas, tudo com detalhes dignos de um romance de cordel. E é este o serviço noticioso. Uma das expressões que mais ouço cá é o “tema de la inseguridad”. É o tema principal! Não é a questão do acesso ao serviço público de saúde ou a corrupção que atravessa toda a administração pública. O problema, mesmo mesmo, é a insegurança. Mas faça-se um inquérito a uma amostra significativa da população de Buenos Aires e serão poucos os que já foram assaltados.

A verdade é que a sensação de insegurança se deve muito ao facto de a comunicação social difundir uma cultura do medo. Como já aqui contei antes, os números de infectados com a gripe A são “mais de 100 000”, segundo as notícias. Estranho, não é?, quando os EUA têm pouco mais de 30 000… A Argentina deve ser um fenómeno!

Posto isto, passo agora a contar o episódio da madrugada de Domingo passado. Assim à distância dá vontade de rir, mas a verdade é que as coisas poderiam ter corrido francamente mal. Ora no Sábado à noite tivemos um casamento e albergámos cá em casa um amigo, que tinha avião de regresso a casa no Domingo de manhã. Como ficámos cansados da festa antes dele (dizem que a idade não perdoa e atrevo-me a concordar), deixámos-lhe as minhas chaves e recomendámos-lhe muito que nos acordasse de manhã antes de ir para o aeroporto. Por um lado, queríamos despedir-nos dele; por outro, a porta de lá de baixo do edifício só se abre com chave, mesmo de dentro para fora, portanto alguém teria de lha abrir para ele poder sair.

Para não nos acordar, saiu sem nos avisar e deixou as chaves em casa. Claro, assim que chegou lá abaixo deparou-se com a evidência da porta fechada, às sete da manhã, e de um avião a sair dentro de poucas horas. Tocou para a portaria, precisamente no dia em que a porteira está de folga. Como não respondesse, ele continuou a tocar, a tocar, até que ela decidiu ver o que se passava. Ia abrir-lhe a porta quando a filha lhe recomendou muito cuidado, porque “podia ser um assaltante”.

A partir daí a coisa descambou. Foi chamada a polícia, que veio de arma em punho procurar o “assaltante”, que entretanto tinha subido outra vez ao nosso andar e tentava acordar-nos (hmmm… sem êxito). Lá se encontram polícia e “assaltante”, arma na mão do polícia, pedido de documentos, o rapaz alcoolizado porque vinha de um casamento e preocupado porque tinha o avião na iminência de sair, enfim, todo um carnaval de mau gosto. Às tantas, a porteira lá o reconheceu como sendo o nosso amigo, depois de ele lhe relembrar que ela nos tinha visto aos três juntos, no hall do prédio, arranjadinhos para sair para a festa.

E é isto: uma coisa tão simples quanto ele a querer sair do edifício para ir para o aeroporto poderia ter-se transformado numa tragédia, isto tudo porque a primeira coisa que se pensou foi que ele era um assaltante.

Faz lembrar a história do ratinho Desperaux. Se não viram, vale a pena, pois é uma bela fábula sobre a cultura do medo.

Cabe aqui acrescentar, à laia de epílogo, que o nosso amigo chegou bem a casa e que ainda gosta de nós. Ufa!

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5 comments

  1. Ana says:

    Já sem mencionar a inseguridad que é essa porta da rua que não se abre por dentro. Imagine-se que há um incêndio e há algum desgraçado que não tem chave?

  2. Billy says:

    Ana, nós também pensámos nesse tema da inseguridad da porta que não abre. Mas achas que surte efeito? O problema, cá, vem sempre de fora!

    Marianita, o amigo voltou bem para o Chile (apesar de colombiano). E continua amigo e quer cá voltar com a namorada. Valha-nos o bom humor dele!

  3. Billy says:

    P.S. Graças ao rocambolesco episódio, decidiram finalmente instalar um intercomunicador dentro da casa da porteira, que até hoje tinha de ir ao corredor (e ficar à mercê de “assaltantes”).

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