Um país sério?

Ontem estava a ouvir o podcast do Governo Sombra, da TSF, em que se comenta o (lamentável) episódio dos corninhos no hemiciclo português. Confesso que, apesar de muito lamentável, eu não consigo parar de rir com a cena e tenho até alguma curiosidade de saber o que terá passado pela cabeça do (ex-)ministro no momento em que os fez.

Mas o que interessa aqui foi um comentário que foi deixado no jornal Globo, que dizia: “em país sério é assim: faz palhaçada, dança.” (no minuto 14 do podcast). Este comentário foi lido durante a reunião do Governo Sombra e foi amplamente comentado pelos participantes que, com muito humor, se referiram à parte em que Portugal era visto como “país sério”.

E é aqui que eu quero chegar. Bem sei que a minha visão está já nublada por meses de ausência e milhares de quilómetros de distância, mas às vezes estes são factores que nos permitem avaliar melhor o avanço ou retrocesso de um país.

De uma forma geral, os portugueses acham que o seu país não é sério e fazem “desabafos” para o ar, perfeitamente inconsequentes, da forma menos eficaz possível. Por exemplo, quantas vezes ouvimos dizer “isto é tudo uma bandalheira”, ou “eles são todos iguais” ou “eles são todos uns corruptos”, referindo-se à classe política em geral. Não vou dizer que tenho uma imensa simpatia pelos políticos, mas a verdade é que eles estão onde estão porque foram eleitos.

Ora bem, aqui chegamos à parte em que Portugal, que pode não ser um país sério para muita gente, é um país onde as eleições são um dever e não uma obrigação (ao contrário da Argentina ou até da Austrália, onde o voto é obrigatório); Portugal é um país que tem uma Comissão Nacional de Eleições que organiza e supervisiona o acto eleitoral, que produz boletins de voto universais e que controla o acto eleitoral para que não existam fraudes.

Só para pôr esta situação em perspectiva, uma situação que parece natural e óbvia para os portugueses, aqui na Argentina os boletins de voto são responsabilidade dos partidos; não há cruzinhas em quadradinhos: o voto faz-se pondo o “cupão” do candidato em questão dentro do envelope. E, atenção, nem todos os boletins de voto chegam a todas as câmaras, seja por falta de dinheiro, de controle, por sabotagem ou por fraude. Ou seja, se um cidadão que vai cumprir a sua obrigação de voto quer escolher um candidato X e o “cupão” desse candidato não chegou à câmara de voto, então não vai poder votar nele.

Voltando ao facto de os portugueses, em geral, não acharem que Portugal é um país sério, tenho a dizer que acho que, em geral, os portugueses queixam-se muito mas nos sítios errados. Ou seja: queixam-se muito para o ar, para obter a empatia do ouvinte (exemplo disso são as paragens de autocarros!) mas agem muito pouco. Um exemplo: outro dia recebi um email com uma petição para os direitos dos cegos. Pediam para assinar e, quando o total de assinaturas perfizesse o milhar, para reencaminhar para outro sítio qualquer. Por curiosidade, passei os olhos pelos nomes que já lá estavam e vejo isto:

961- Isabel Xxxxx – Xxxxx (é de lamentar quão mal está este país embora para os “nossos” (des)governantes isto esteja tudo porreiro, pá!)

Para mim, este é o típico desabafo “ao lado”. Aquela crítica que não só não é construtiva como também não faz absolutamente nada para melhorar a situação. Quantas vezes escutamos as queixas das pessoas relativamente aos transportes públicos, ou aos serviços? E quantas dessas queixas são deixadas nos livros de reclamações obrigatórios por lei? Mais, quantas dessas pessoas é que vão realmente votar e usar o instrumento básico da democracia? Quantas pessoas participam activamente na sua freguesia ou no seu município? Quantas denunciam o incumprimento da lei através dos instrumentos postos à disposição do cidadão? Porque Portugal, que para muitos não é um país sério, tem uma justiça que tarda (muito) mas vai funcionando; tem um sistema de saúde pública que é velho, mas que continua a dar melhor assistência que o privado, sobretudo quando se trata de casos fora do comum; tem transportes públicos onde o utente é tratado com respeito; é um país onde a mentalidade vai mudando gradualmente e hoje já se respeita quem sobe na vida por mérito ou quem cumpre as suas obrigações.

É também um país onde as pessoas, de uma forma geral, se desresponsabilizam e preferem não agir e criticam em vez de mudar. E são estas pessoas que fazem de Portugal um país menos sério.

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4 comments

  1. Anonymous says:

    Agora fizeste-me lembrar uma coisa em que ainda este fim-de-semana estava a pensar. Não sei como é noutros países, mas por aqui temos verdadeiro terror a denunciar alguém que não cumpre a lei (como os delinquentes da nossa rua, por exemplo). E olhamos para o lado. Penso que ainda são traumas dos tempos da PIDE, uma mistura de “eu não sou bufo” com “coitado, deixa lá”. Mas a verdade é que isso perpetua muitas vezes a impunidade.
    Enfim, desabafos (e este não sei onde o escrever, por isso foca aqui). Beijinhos e obrigada por estas reflexões,
    fungaga

  2. Billy says:

    Acho que tens toda a razão, Fungagá. Um pouco nesse âmbito, acho que as listas dos devedores ao fisco podem ser um bom incentivo a essa mudança de mentalidades. Sabes que quando contamos aqui que essa lista existe ninguém acredita? Fica tudo incrédulo!

    Mzinha, não tens de agradecer!

  3. muipiti says:

    Gostei imenso desta sua opinião sobre esta dúvida se somos realmente um país a sério.
    Afinal essa é a nossa grande responsabilidade mas para isso é importante que todos cumpram com as suas obrigações cívicas em lugar de se canalizarem as energias no sentido errado.
    Orgulhamos-nos da nossa democracia mas não tiramos o melhor partido dela!

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