Bolívia parte V: Potosí

O relato da viagem à Bolívia tem-se prolongado mais do que devia mas tudo se deve a muito boas causas: não só tivemos visitas cá em Buenos Aires, como também tivemos o casamento dos nossos amigos no Brasil. E, claro, muito trabalho. Nem por sombras me estou a queixar, já que convívio é sempre agradável (ainda por cima, deu para “praticar” português!), mas como consequência o relato da Bolívia tem-se arrastado mais do que devia.

E, para atacar directamente o “problema”, ao relato regresso, no ponto em que estávamos: Salar de Uyuni, frio, terra no meio do nada, muito vento, paisagem maravilhosa, piquenique à beira do salar, na encosta de um vulcão, flamingos no cenário, melhor excursão da minha vida.

No dia seguinte deixámos Uyuni para trás, no mesmo jipe da viagem ao Salar, pela estrada que estava marcada no mapa. Sim, no mapa, mas, no terreno, de estrada tinha muito pouco. Era o sítio onde um dia irá estar a estrada, para sermos mais rigorosos. Uma viagem de 200km até Potosí levou cerca de 6 horas a fazer. Fez-me lembrar, em alguns momentos, aquelas longas, longas viagens até ao Algarve ou até à Capinha, em que subíamos e descíamos serras, vencendo infinitas curvas e moendo a paciência aos nossos pais com o inevitável Ainda falta muito?

Nesta viagem, só por vergonha não perguntei mais vezes se ainda faltava muito, sobretudo porque aquela futura-estrada não era a melhor amiga da bexiga mais robusta do mundo. Sem estrada, é claro que estação de serviço também não havia; em contrapartida, havia hectares e hectares de casa de banho, protegidas por biombos de cactos, árvores de flores vermelhas e a ocasional llama mais curiosa.

A paisagem à beira do caminho era de cortar a respiração: pequenos regatos congelados pelo frio da noite, llamas com flores nas orelhas (servem de identificação), montanhas de cacau, pó no ar e vento, sempre o vento. No meio do nada, erguia-se uma pequena aldeia construída com tijolos de adobe, mimetizando-se totalmente com a paisagem. Quem viveria ali no meio do nada? À beira daquele caminho que nem sequer era estrada? Onde haveria água para os abastecer?

A exploração mineira é a fonte de riqueza daquela zona e a razão para o estabelecimento daqueles povoados. Os maiores, mais perto das minas, são também muito completos com cinemas e campos de pelota basca (nem sequer sabia que se jogava pelota basca na Bolívia, mas parece que sim. E aqui na Argentina também há o ocasional campo!). Numa das curvas do caminho, o guia aponta-nos para uma montanha, igual em aspecto a todas as outras, e diz-nos: “esa montaña es Cerro Rico y atrás está Potosí”. Não mais tirei os olhos da montanha: detrás, tinha o aspecto de todas as outras, cacau que voa com o vento. Quando vemos a encosta onde se estende Potosí, aí sim: a montanha está totalmente esburacada e desfigurada. A única coisa que eles não alteram é o contorno exterior que se vê da cidade. Fora isso, são estradas, acessos, caminhos, casas, tudo ao serviço da extracção do minério.

Potosí é uma cidade colonial com um centro histórico muito bonito e muito bem separado da parte onde viviam os locais. A cidade espanhola tem muralhas e entradas e o acesso era restrito: entravam espanhóis e crioulos; os nativos só durante o dia, penso eu, e para ir fazer comércio. De resto, tudo separado. Em Potosí, mais que em qualquer outro lugar que visitámos, nota-se bem a pirâmide social do tempo da colónia: os espanhóis no topo, a seguir crioulos, depois as pessoas separadas de Espanha por mais gerações, as llamas e, no finalzinho, os aymará e restantes tribos nativas. Sim, estavam abaixo das llamas… Depois dos aymará – ou seria ao mesmo nível? – os escravos importados de África para explorar a mina.

Toda a cidade gira à volta da mina, de onde se extrai prata. Hoje em dia tem uma universidade e uma grande população estudantil que consegue fugir ao destino de mineiro, destino certo para quem não tem posses ou outra alternativa para alimentar a família.

Na cidade colonial visitámos a Casa da Moeda, uma construção enorme (para a escala local) que serviu de fábrica de cunhagem de moeda e que hoje alberga um museu multidisciplinar. Lá há de tudo, como na feira. Tivemos algo de azar com a pessoa que nos fez a visita guiada lá: parecia zangada com toda a gente em geral e com os turistas em particular. Não se cansou de repetir, como se a culpa fosse especificamente de quem a ouvia, que o mundo ocidental (a Espanha, principalmente) tinha vivido e enriquecido à custa da prata de Potosí, extraída à custa de muito sofrimento humano. É claro que ela tem toda a razão no que diz, mas a forma como o diz pareceu-me um pouco fora de tudo. Desubicada é o novo termo oficial.

Segundo pátio da Casa da Moeda de Potosí.

Portão de entrada para uma das “casonas” coloniais, hoje divididas em muitas pequenas casas que funcionam como um condomínio quase fechado, só que de gente sem dinheiro.

Ruas e esquinas de Potosí.

Mercado de Potosí.

Quando perguntámos ao “nosso” guia, o que nos tinha levado ao Salar, se havia muita animosidade dos bolivianos em relação a Espanha, respondeu-nos de forma muito clara: “Com Espanha? Não. Com o Chile, que nos tirou o acesso ao mar.” E isto fez-me pensar em quando tenho uma dor de cabeça que passa quando a dor de barriga é muito maior e me distrai da primeira dor.

Em Potosí sentimo-nos num hotel de luxo, de vinte e quatro estrelas, pelo menos, porque tinha aquecimento central. E sim, era bem necessário, porque o gelo que se forma durante a noite nas ruas não chega a descongelar durante o dia, apesar de as temperaturas subirem até aos 15ºC. Ao jantar, pudemos comer num restaurante aquecido e entrar na internet sem gorro na cabeça.

Um dos três pátios do nosso hotel. Estão a ver a fonte no meio? Lá dentro, a água está congelada!

Mas a grande experiência de Potosí seria no dia seguinte: a visita à mina.

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