Bolívia parte IV: Salar de Uyuni

A excursão ao Salar de Uyuni foi uma das melhores, senão a melhor, excursões da minha vida. A Bolívia está parada no tempo e ainda não está muito preparada para receber turismo. Embora não tenhamos sido propriamente “pioneiros a desbravar um destino novo”, o facto de o país não ter boas estradas, por exemplo, faz com que haja menos turismo. Havendo menos turismo, há menos contaminação com hábitos menos simpáticos de outros países. Ora vejamos: cá na Argentina (e provavelmente também em Portugal), há um hábito de, no meio de uma excursão, impingir restaurantes aos viajantes, daqueles com ementa única e preço único (geralmente alto). Na Bolívia, não: entradas em parques, refeições e bilhetes já estavam todos incluídos e realmente não tivemos despesas imprevistas. Além disso, em quase todos os passeios tivemos uma guia exclusivo para nós, o que permitiu sempre ter um contacto um pouco mais fundo com as pessoas.

Todo este preâmbulo para chegar aqui: a excursão ao salar foi maravilhosa. Passámos a maior parte do dia sem ver absolutamente ninguém e, só chegados à Ilha Incahuasi, uma ilha no meio do salar que serve como ponto de reabastecimento ali no meio do nada, encontrámos outros turistas. Tivemos a companhia constante de um guia fantástico e do motorista do todo-o-terreno indispensável para o trajecto.

Saímos de manhã de Uyuni e fomos ao cemitério das locomotivas.

Aqui descansam em absoluta paz as locomotivas que transportavam as mercadorias para o Chile, ou seja, para o Pacífico, e daí para o resto do mundo. Uyuni era o ponto de encontro de algumas das linhas e, por isso, nasceu ali o pueblo mais abandonado e isolado do altiplano andino (não tenho factos para suportar esta afirmação, apenas a minha observação). O sal que vem do salar corrói a chapa e, aos poucos, só se vêem os seus esqueletos. Mas esta foi só a primeira paragem deste dia cheio de surpresas e emoções.

Dali seguimos para Colchani, uma mini-aldeia à beira da entrada do salar, que vive exclusivamente da produção de sal e de lembranças feitas de sal. Vimos como se faz a produção (artesanal, difícil e sofrida) e depois o artesanato local. A coisa boa, mais uma vez, é que ninguém nos impingiu nada.

Paragem seguinte, já perto da entrada do salar, foi o hotel de sal. Um dos hotéis mais insólitos do mundo, está construído com tijolos de sal e o chão está revestido de sal grosso, que tapa todos os canos e tubos que por lá passam. Excepto as partes que contactam com água, tudo o resto é feito de sal. O hotel tem todos os confortos que alguém pode desejar ali naquele lugar, incluindo aquecimento central (que não estava ligado), uma piscina, espreguiçadeiras e solário e ainda gabinetes para massagens. Tanto conforto ali parece deslocado.

A sala de estar do hotel de sal

A piscina, numa zona de estufa, com as espreguiçadeiras.

O interior de um dos quartos.

Até aqui só tínhamos visto o salar mais ou menos ao longe. Mas depois de entrar lá dentro, a sensação muda radicalmente: entramos num deserto branco onde as únicas referências são as montanhas que se erguem ao longe, a mais de 70 quilómetros de distância. É grande. E branco.

O salar é o que resta de um gigante lago que preenchia todo o altiplano, que se assemelha, visto de cima, a uma enorme bacia. A água foi evaporando ao longo dos anos, deixando o Lago Titicaca, os lagos mais pequenos e menos profundos que vimos na viagem de comboio entre Oruro e Uyuni e vários salares. Apesar de a água deste grande lago ser doce, arrastou os minerais das montanhas, que se acumulam nas zonas mais baixas, formando os salares. Abaixo da superfície de sal (que tem, pelo menos, 11 metros de espessura), existem lençóis de água muito mineralizada, que brota aqui e ali, formando pequenas bolinhas. Dir-se-ia que a água estava a ferver, mas não.

Esta água é muito rica em lítio e estas “borbulhas” são de oxigénio.

Ao longe vimos montículos de sal, prontos para serem carregados nas camionetas a caminho de Colchani.

E depois foi altura de nos adentrarmos no Salar. Ao longe, um vulcão adormecido. Para lá nos dirigimos, por cima das marcas deixadas pelas rodas de outros veículos. A isso eles chamam “estrada”. E vem marcada no mapa. Quase uma centena de quilómetros mais tarde (deu para fazer uma mini-sesta no caminho), chegámos a “terra”. Na encosta do vulcão existe uma necrópole, que visitámos. Não é a necrópole que é particularmente interessante, mas sim o facto de ela existir ali: a severidade do clima obrigou a uma intensa adaptação das pessoas e dos animais. À beira daquele deserto de sal, singra a vida. Existem umas poças de água, suficientes para as lamas (os animais) se hidratarem e os flamingos sobreviverem. A paisagem surreal que é o salar fica ainda mais surreal com aquelas manchas de verde pintalgadas do rosa estridente das suas plumagens.

O indispensável saltinho, inspirado na , na Prainha e na Sónia. Aquelas migalhitas que se vêem ao longe são os flamingos. E, gente, a minha câmara não apanhou a intensidade de todas aquelas cores: naquele ar tão rarefeito ficam estridentes.

Naquele cenário paradisíaco, fizemos um piquenique, aquele que não pude ter nos anos. Fingi que era o meu aniversário e aproveitei-o ao máximo. A comida estava boa, sim, mas o melhor de tudo foi o sol, o salar, o vulcão e os amigos flamingos. Foi um momento insuperável, cuja emoção é difícil de relatar. Em “duas” palavras: a-mei.

Com o sol já em rota descendente fomos em direcção à Ilha Incahuasi. Subimos ao seu ponto mais alto e esta era a vista de lá de cima:

Sal, cactos, terra. Lindo.

A superfície do salar tem uma textura curiosa:

Chegou a hora de voltar a Uyuni, com óculos, cabelo, pele e roupa cobertos de sal.

E aqui passámos um mau bocado com o frio. Tanto até que fomos para a cama às oito da noite, o único lugar onde eventualmente poderíamos estar a salvo do ambiente agreste. E, convenhamos, há melhores razões para ir para a cama.

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3 comments

  1. Diana Sousa says:

    Parecem os lagos gelados no Inverno aqui… com uma temperatura muito mais amena, suponho! E também sentiste o silêncio? Aqui quando vamos para o meio de um lago gelado não se ouve absolutamente nada… é estranho…

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