Era uma vez

Era uma vez uma boa ideia.

Era uma vez uma boa ideia.

Era uma vez uma boa ideia?

Era uma vez um guia de restaurantes de uma cidade austral. Certo ajuntamento de duas pessoas tinha por missão verificar se esse guia estaria a dar uma visão objectiva do panorama gastronómico local. Ao abrigo desse projecto, dito ajuntamento de dois decidiu-se a experimentar um restaurante indiano, numa quinta-feira ao jantar.

Como em tantas outras cidades de tradição hispânica, jantar que é jantar começa tarde. E assim nasceu esta boa ideia: vamos a um restaurante italiano e indiano, mesa para dois reservada para as 21h, cá estaremos à sua espera.

Em primeiro lugar, que coisa é este de restaurante italiano e indiano? É a mistura mais improvável do mundo, em termos culinários, mas mesmo assim este não é o primeiro restaurante do género que encontro e, certamente, não será o último. Em Lisboa também os há e sempre me perguntei se os respectivos donos tiveram dúvidas sobre que comida servir, olharam para o índice alfabético de especialidades gastronómicas e só encontraram o volume da letra “I”. Daí ao mix-max, um passinho.

Como em todos os restaurante novos para nós, quisemos saber as recomendações. E aqui, a recomendação única foi um menuzinho de degustação, não se preocupe, não fica nada cheia, as porções são pequeninas, há alguma coisa que não possam comer ou à qual têm alergia e qual o nível de picante que desejam. E assim nos vimos perante um soberbo menu de degustação de comida indiana, numa quinta-feira ao jantar (tardio para o género culinário em causa), como se fôssemos os campeões da enzima e dos movimentos peristálticos (que é como quem diz, “da digestão”).

Primeiro passo: uma salada de mariscos e um ceviche. Os dois deliciosos, mas estou em dúvida quanto à proveniência indiana do ceviche. Pensei que fosse latino-americano, mas talvez seja eu a sonhar. Em todo o caso, foi bom comer peixe e mariscos frescos. Mnham.

Segundo passo: “somosas” e “pakoras” com chutneys de ameixa e de tomate e limão. Mais uma vez, tudo delicioso e comido até ao último pedacinho. Prato impecável, pronto para arrumar no armário e voltar a usar.

Terceiro passo, e aqui começamos a falar a sério: guisado de lentilhas. O meu estava suave (com pouco picante) e muito delicioso. Já o do Paulo, estava fogo. “Médio”, foi o nível de picante requerido, mas o chefe era indiano, não italiano, e a mão saiu-lhe pesada como sai normalmente na Índia, onde o “mild” é um nível de picante que, a mim, me faz suar em bica. O Paulo não ficou atrás e sofreu com o picante. Não com as lentilhas, coisa de que, por sinal, ele não gosta. (Como o queijo. Alguém já o ouviu dizer que não gosta de queijo? É um mito. Vejam-no a comer fondue de queijo provoleta fumado. Depois conversamos.)

Quarto passo: frango com o molho vermelho, com um arroz delicioso e chapati. (É raro lembrar-me dos nomes dos molhos indianos, para mim funciona por cores: molho vermelho, molho amarelo que não tem caril e assim por diante.) Delicioso também, tudo delicioso, mnham.

Quinto passo: cordeiro com o molho de caril, acompanhado do tal arroz delicioso. O molho, mnham. O cordeiro, para mim, tem sempre aquele sabor a … (queria dizer “a bedum”, mas será que fica mal?) que me faz lembrar a Páscoa e os piqueniques no Alentejo, com os ensopados de borrego das várias tias a terem de ser provados. Estás a comer o ensopado da tia Maria Carolina? Sim, sim, e tu? Ai, eu o da tia Maria Carolina já provei, agora estou no da tia Maria José. Resumindo: não sendo fã de borrego, que não sou, adorei o molho com o arroz delicioso. Mnham, mais uma vez. E já vão cinco.

Sexto passo: mix-max de sobremesas. Uma mousse de baunilha, um cheese-cake e um bolo de chocolate. Tudo porções generosas, tudo tipicamente indiano. E, mais ou menos por esta altura, capitulámos. Mas ainda não tinha acabado, só vem mais uma coisinha pequenina, garantiu-nos o empregado.

Sétimo passo: um “sabayón” com uma bola de gelado de baunilha e morangos confitados. Não sei o que são morangos confitados, nem o “sabayón” (é algo com muita gema de ovo e outra coisa qualquer que vai ao forno muito brevemente para queimar a crosta). Só conhecia o gelado de baunilha e, mais uma vez, nada disto me parecia muito indiano. Este sétimo passo só debicámos. Nada de comer à séria. Aqui, as barrigas já estavam perigosamente cheias.

Contados os sete passos, respirámos de alívio e recostámo-nos nas cadeiras, prometendo umas quantas voltas ao quarteirão quando chegássemos a casa. Bebericámos o vinho (“será que ajuda a digestão?”) e recusámos os chazinhos e os cafezinhos da praxe, já não dava. Mas, apesar de não haver chá nem café, houve bolachinhas, deliciosas por sinal. Já estava tão cheia que não iam ser aquelas duas mini-bolachinhas que iam fazer a diferença, certo?

Quando me levantei, ui, aí dei-me verdadeiramente conta de que tinha comido demais e que já eram dez e meia. Chegámos à rua e estava a chover, o que pôs de lado o nosso plano do passeio higiénico e digestivo pelo bairro.

Na cama, uma hora mais tarde, pus as almofadas para me manterem a cabeça para cima e o sono acabou por me vencer. Até às cinco da manhã, hora a que acordei com calor e com a digestão a meio (a meio?). A partir daí, só rebolei e transpirei. O Paulo levantou-se da cama e informou-me esta manhã que tinha estado a ver as notícias, havia alerta por causa das inundações na província de Buenos Aires e que tinha revisto o “Ana e o Rei”, “aquele com a Jodie Foster na Tailândia, sabes?”.

Moral da história: foi uma vez, foi uma ideia.

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2 comments

  1. Bau says:

    Olha, devo dizer que não percebi onde é que a boa ideia se transformou em má ideia! 😉 A mim pareceu-me sempre boa e bem aproveitada. Quando eu voltar aí também quero ir ao Italo-Indiano… e ao ceviche… e ao Osaka… e à comida caseira da Bi e do seu Paulinho. E adorei a lembrança do piquenique e dos vários ensopados das várias tias.

  2. alcindaleal says:

    Então não foi uma boa ideia?
    Depois é realmente difícil resistir!
    A má ideia foi depois a chuva que não deixou fazer uma caminhada!
    Na próxima vez consultam também a metereologia!
    bjs

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