Viagem e preconceito

A viagem de expresso para o Fundão correu bem e nem seria digna de nota não fosse um episódio curioso. Tudo se passou na minha cabeça, claro, com alguns pequenos estímulos externos. Pequenos, mas ruidosos.

A experiência das viagens semanais ao Porto trouxe-me o “saber-fazer” (para usar a expressão portuguesa) da leitura no autocarro sem enjoar. Não é um feito fácil para mim, mas já consigo. E assim vim embrenhada na leitura de A viagem de Morgan, que terminei.

A páginas tantas, bem ao longe, comecei a ouvir um barulho, que se repetia em intervalos cada vez mais curtos. Fui desligando a pouco e pouco da leitura e identifiquei o ruído. Alguém aspirava ruidosamente o monco preso algures entre a cavidade nasal e a faringe.

A avaliar pelo ruído, cada vez mais forte e mais frequente, imaginei que só se poderia tratar de um taberneiro de nariz vermelho e inchado, constipado ou pneumónico, cheio de gota e colesterol e tensão alta. Construí toda uma imagem da personagem que tanto fungava, e com tanto entusiasmo. Sim, claramente, homem peludo com um casaco de cabedal feio e preto, ou então na mão a toalhita mais cinzenta que branca para limpar o balcão.

Finalmente, olhei. A personagem fungante era uma rapariga muito bonita, bem vestida, com imitações de brilhantes nas armações dos óculos e com um telemóvel topo de gama.

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